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A
notícia da façanha de Wilmut foi uma bomba, uma
unanimidade, uma festa e tanto.
Bem,
comecemos pelo verbo "clonar", que por sinal ainda não
faz parte do Aurélio. Esse neologismo genético significa
fazer cópia, artificialmente, de um ser vivo. Aliás,
"clonar", em si, nem é uma novidade. Cientistas do
mundo inteiro andam "clonando" por aí há quase
vinte anos. Desde 1978, vários tipos de animais são copiados
-- e, se não fosse proibido, já teriam sido anunciados os
clones de gente. Mas antes as cópias eram obtidas a partir de
embriões -- e embriões, você sabe, são aqueles pequenos
ovos gerados a partir do encontro de um óvulo com um
espermatozóide. Portanto, a técnica de clonagem partia da
multiplicação forçada de embriões. Reproduziam-se num tubo
de ensaio diversos embriões de uma matriz, que depois eram
colocados nos úteros de várias fêmeas.
O
que Wilmut conseguiu de extraordinário foi quebrar dois
tabus. Primeiro, eliminou de seu clone a necessidade do
encontro de um espermatozóide com um óvulo -- até aqui
indispensável para formar o embrião. Wilmut produziu sua
criatura usando um óvulo virgem, que nunca havia sido
fecundado. Para isso, retirou desse óvulo o seu núcleo
original e pôs no lugar os genes de uma célula comum de
outra ovelha. Esta é que foi "clonada". Da que era
dona do óvulo, coitada, nada restou no filhote.
Aí,
veio o segundo e mais espetacular tabu: o cientista escocês
fez um embrião com os genes de uma célula comum, ou melhor,
especializada. Essa célula especializada veio de uma glândula
mamária, uma simples teta. Sua única função na existência
era ser mama e nada mais. Por isso, especializada. As células
do cabelo são especializadas em ser cabelo, as do fígado, em
ser fígado, as da unha, unha. Agora, na Escócia, a carga genética
de uma célula corriqueira gerou um inacreditável embrião.
Dali nasceria uma ovelha geneticamente idêntica à dona da
mama. "Esse resultado mostra como é fascinante o
desenvolvimento atual na área da Genética e da reprodução",
disse à SUPER o médico Roger Abdel Massi, especialista em
reprodução humana. Sim, um verdadeiro milagre, mas científico.
A
ousadia de Ian Wilmut foi coroada com o humor típico da
cultura britânica, um humor que talvez seja genético. Ele
batizou sua cria de Dolly. Uma homenagem, diz o cientista, à
cantora americana Dolly Parton, dona de uma silhueta que realça
bem a parte do organismo de onde Wilmut retirou sua célula
especializada. O escocês, merecidamente, foi a sensação do
planeta.
Reviravolta na Teoria da Evolução
Ian
Wilmut simplesmente aposentou aquilo que era uma lei sagrada
da Biologia, segundo a qual uma célula especializada (de
ovelha e da maioria das espécies conhecidas) jamais poderia
gerar um novo ser. Com algumas poucas espécies, como a
estrela-do-mar e as bananeiras, não é assim. Se alguém
corta um pedaço do tronco de uma bananeira e o joga no
canteiro, outra vai brotar espontaneamente. Ou seja, a célula
especializada do tronco vira embrião e inaugura outra
bananeira, idêntica à primeira. Para esses seres a clonagem
é rotineira. Mas para a maioria das espécies não há
clonagem natural. Apenas os óvulos e os espermatozóides
participam da reprodução. Resumo: sem sexo, elas jamais
poderiam se reproduzir.
A
evolução passa pelo sexo há cerca de 500 milhões de anos.
E ela fica melhor assim. Havendo espermatozóides e óvulos
trocando cargas genéticas, as possiblidades de nascerem indivíduos
diferentes é maior, pois os genes do pai se misturam aos da mãe
num organismo novo. O que é bom: mais indivíduos diferentes
significa mais chance de evolução. Se todos fossem como as
bananeiras, os filhotes seriam sempre idênticos aos pais,
geração após geração, e a evolução seria muito lenta,
causada só por uma ou outra mutação dos genes.
Nas
espécies que se reproduzem por óvulos e espermatozóides,
que são a maioria, a natureza criou uma sábia proibição:
nenhuma outra célula do corpo está autorizada a participar
da reprodução. Só as células sexuais cuidam disso.
Foi
aí que Wilmut anunciou um revertério assustador, derrubando
a velha lei. Ele conseguiu desprogramar uma célula
especializada e fazer com que seu núcleo, levado para dentro
de um óvulo, virasse um embrião. "Com isso, ganhamos
uma capacidade reprodutiva que é típica das plantas",
explica o professor Otto Crócomo, da USP, um dos maiores
especialistas em clones de vegetais no Brasil. Como é uma máquina
complexa, o organismo só funciona direito se cada parte tiver
função bem definida e se todas as partes estiverem bem
coordenadas. É por isso que as células se especializam
durante a gestação. Umas virarão olho, outras fígado etc.
Mas, mesmo especializadas, todas as células têm os mesmos
genes. Logo, o que Wilmut precisava fazer, era apagar as
instruções inscritas nos genes da célula tirada da ovelha
adulta, a que seria a mãe de Dolly. Essa célula só sabia
ser mama, mas o escocês deu a ela a ordem de ser embrião.
Como? É o que você vai ver a seguir.
O
que eu vou ser quando crescer?
Veja
como as células se especializam, aprendem a executar uma
tarefa específica e usam apenas alguns dos seus genes.

Como
embrião, a célula ainda não sabe o que vai ser quando
crescer. Sua carga genética, o DNA dentro do núcleo, está
livre para assumir qualquer função.
O
embrião cresce porque as células se multiplicam. Aí elas
começam a desligar os genes de que não vão mais precisar

Uma
célula da mama só usa os genes que interessam à sua função,
como o que manda fazer uma das muitas proteína do leite.
No
final, só ficam ligados os genes que cada célula
especializada usa em sua função dentro do organismo.
Como
tapear uma célula de ovelha
Para
realizar o sonho impossível de fazer de sua célula
especializada um embrião, Ian Wilmut apostou num palpite
sensacional: a fome. É um palpite que ainda não está
inteiramente comprovado mas, ao menos em teoria, é fabuloso.
Vamos a ele. Primeiro, submeteu a célula a uma dieta de sais
comuns, como cloreto de cálcio e sulfato de magnésio, o
equivalente a um chá com torradas. Com isso, o núcleo teve
que reduzir suas atividades a quase zero, entrando num estado
letárgico que os embriologistas chamam de quiescente. Nesse
estado, a célula interrompe o seu ciclo de crescimento
normal.
O
truque fez essa quiescência acontecer quando a célula ainda
era bem jovem. Essa é a fase G-Zero, muito breve. É o único
instante em que os genes, dentro do núcleo, descansam e param
de distribuir as ordens de crescimento e multiplicação para
a célula. Nessa fase, as operações ficam a cargo de proteínas
especiais do citoplasma. A função dessas proteínas é
justamente entrar no núcleo e preparar os genes para o início
de um novo ciclo de crescimento e reprodução.
Nesse
instante preciso, transferindo esse núcleo para um óvulo
cujo núcleo havia sido retirado, o cientista deu início a um
grande logro. Sem essa tapeação, a experiência iria
fracassar. Lembre-se de que óvulos e espermatozóides só têm
metade do material genético de uma célula normal. Eles só
formam um embrião quando se fundem, somando suas duas
metades. Assim formam o embrião. Pois ao receber um núcleo
novo, que contém o material genético completo, o citoplasma
daquele óvulo vai cair numa ilusão biológica (imagine, só
para entender o truque, que os óvulos caiam em ilusões). Então,
o citoplasma vai atuar como se o núcleo já fosse um embrião.
Suas proteínas, entram lá dentro e reprogramam os genes
totalmente, disparando o início do crescimento e da
multiplicação celular. Ou seja, o genes também serão cúmplices
da ilusão. Em vez de autorizar um crescimento de novas células
de mama, o que seria natural, assumem sem problema o papel de
embrião. E tem início uma multiplicação celular para
formar uma ovelha novinha.
"As
proteínas do citoplasma realmente podem ter reprogramado os
genes", confirmou à SUPER o embriologista Colin Stewart,
do Centro Frederick de Desenvolvimento e Pesquisa do Câncer.
Claro que a experiência ainda requer comprovações. Mas,
desde já, o embriologista escocês abriu novas portas para a
Biologia.
O
segredo de Wilmut
Veja
como o cientista construiu um embrião simplesmente obrigando
uma célula especializada a passar fome.
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A
história começa com a célula da mama que ia virar um
clone. Antes disso, foi preciso interromper o seu ciclo
normal de reprodução. Acompanhe a experiência |
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1.
A célula começa o ciclo bem jovem. Apesar de ser um
bom momento para clonar, todas as tentativas até hoje
deram errado.
2.
Na segunda fase do ciclo, a célula fica pronta para
dividir-se em duas. As clonagens a partir daqui também
não funcionaram.
3.
Terceira fase. A divisão já vai acontecer e dar origem
a uma outra célula da mama. As chances de clonagem são
mínimas
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Veio
então o grande lance. A célula jovem recebeu uma dieta
bem magra de sais, que são o que ela come. |
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O
seu núcleo (azul) foi acomodado dentro de um óvulo
(verde) tirado de uma outra ovelha |
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A
fome foi a chave do sucesso, por um motivo muito
simples: ela fez o núcleo da célula interromper o seu
ciclo e ficar num estado letárgico. E aí, ao ser
colocado no óvulo, deixou de lado as instruções para
produzir outra célula de mama. Em vez disso, passou a
agir como um embrião e gerou uma nova ovelha, a Dolly.
A
imaginação entre os mitos e a realidade
Depois
de Dolly, a imaginação de todo mundo disparou na linha
de clonar gente. Vamos com calma. Muito do que se |
fala
por aí é mito. Primeiro, não é verdade que um cidadão
poderia ressuscitar na forma de um clone. Não. Nasceria
um ser muito parecido com o primeiro, mas não é aquele
primeiro reencarnado. Isto aqui é Genética, não
espiritismo. Mais uma coisa: não dá para clonar morto.
A célula tem de estar viva.
Assim,
o clone não ficaria igual a quem lhe deu origem. Apenas
os genes seriam iguais. Mas clone e clonado são
diferentes, assim como são diferentes os gêmeos idênticos,
que também têm o mesmo material genético. Há diferenças
porque, além dos genes, o ambiente, a cultura, a
comida, tudo influi no jeitão do indivíduo.
São
perigosas, enfim, especulações de que os genes atuam
sobre coisas como as emoções e a inteligência. Não há
prova disso. E o mais provável é que a força dos
genes, se existir, seja muito inferior à do ambiente.
Até gêmeos que crescem juntos acabam tendo
personalidades divergentes. As diferenças devem ser
ainda maiores no clone de um adulto, pois cresceria em
outra época e outro lugar.
Fabricados
277 embriões, só um vingou
Com
o impacto da descoberta, diversos detalhes a respeito de
Dolly passaram quase em branco. Um deles é que a
clonagem funcionou, de maneira geral, muito bem. Afinal,
o clone nasceu, e com boa saúde. Na verdade, a experiência
deu um resultado fraco, já que Ian Wilmut não tentou
clonar só uma ovelha, mas um total de 277. Isso
significa que ele conseguiu transformar 277 células
comuns em embriões, que foram depois implantados no útero
de outras ovelhas, usadas como mães-de-aluguel. Mas
desse conjunto inteiro só um filhote chegou a nascer:
Dolly. Além disso, ele fez outras experiências
utilizando embriões verdadeiros em vez de células
comuns.
A
clonagem de embriões já é conhecida, mas ela emprega
embriões bem jovens. Wilmut testou estágios mais avançados
de desenvolvimento para ver o que acontecia. De 557
tentativas, nasceram sete filhotes. Essas taxas baixas
indicam que falta muito para aperfeiçoar a técnica.
Outro fato citado pelo cientista em seu artigo científico
na revista inglesa Nature é a possibilidade de Dolly não
ter nascido de uma célula de mama, mas de algum embrião
de verdade infiltrado por ali. Seria o maior banho de água
fria do ano. As chances são remotíssimas, mas a
suspeita tem de ser investigada.
Quatro
promessas para 2001
Quatro
grandes áreas de pesquisa vão ser tremendamente
beneficiadas pela clonagem, de acordo com as declarações
de Ian Wilmut à imprensa logo após anunciar a clonagem
da ovelha. Dessa lista, a mais relevante, do ponto de
vista científico, é o estudo do processo de
envelhecimento das células. A razão é simples:
sabendo o que se passa dentro das células, os
cientistas podem investigar mistérios tão profundos
quanto os do câncer. Alguns dos avanços recentes mais
importantes no estudo da doença brotaram justamente de
investigações detalhadas sobre as moléculas que atuam
no processo de envelhecimento celular.
O
segundo tópico é mais prático, pois Wilmut diz que
agora vai ficar muito mais fácil agir diretamente sobre
os genes. O resultado dessa ação precisa é que será
possível estudar qualquer enfermidade genética. Na
opinião do cientista, o progresso mais rápido
acontecerá nas doenças pulmonares das crianças. A
quarta
área,
bem próxima a esta última, diz respeito à fabricação
de drogas e terapias genéticas por meio da técnica dos
clones.
A
experiência a serviço da Biologia
Aos
52 anos, pai de três filhos, Wilmut é discreto e metódico.
Não tem o perfil usual de uma grande estrela da ciência.
Há vinte anos faz parte da equipe de 300 pesquisadores
do Instituto Roslin, na pequena cidade de mesmo nome.
Situado a 10 quilômetros da capital escocesa,
Edimburgo, o instituto fica numa grande planície onde a
criação de ovelhas é uma atividade econômica
importante. Visto de fora, pode ser confundido com um
grande estábulo. É natural que, nesse ambiente, a
carreira de Wilmut tenha se orientado muito mais para a
solução das questões práticas da pecuária, e menos
para grandes indagações teóricas da Genética.
"A clonagem nunca foi o verdadeiro motor das minhas
pesquisas", declarou ele à agência de notícias
Reuters logo após o sucesso com Dolly. "Meu
primeiro trabalho importante foi conseguir congelar
espermatozóides de porco." Mas é evidente que
Wilmut acumulou um conhecimento acima do normal sobre o
aparelho reprodutor dos animais. Especialmente nos
primeiros momentos da gestação, em que os embriões
ainda têm a escala microscópica de umas poucas células.
Essa experiência parece ter sido decisiva para a façanha
de transformar, pela primeira vez na história, uma célula
adulta num embrião. |

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