Candidatos devem saber argumentar na prova de redação da UFRGS

 

 

A redação tem 40% do peso da prova de língua portuguesa no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Os avaliadores da UFRGS não exigem uma estrutura fixa para as redações. A intenção é examinar a relação entre as idéias e as palavras que as expressam. O texto, portanto, deverá conter a apresentação de uma experiência pessoal do autor, sem que exista uma regra para a posição dessa história. A narrativa pode estar no início, no meio ou perto do final da redação. A escolha é do vestibulando.

O sucesso na redação da UFRGS está relacionado com a capacidade do vestibulando de defender sua opinião. Os professores recomendam aos estudantes que reflitam a partir de temas extraídos do cotidiano ou da imprensa e discutam as idéias entre si, como forma de treino para o exercício da opinião.

A professora Maria Alice Kauer, que trabalha no Instituto de Letras da UFRGS e ministra cursos na Oficina de Redação, recomenda que o vestibulando percorra três etapas para fazer o texto dissertativo. A primeira é definir um ponto de vista sobre o tema proposto, ou seja, identificar claramente o que pensa a respeito do assunto. A partir daí, o candidato tem de pensar em argumentos capazes de sustentar a idéia. O último passo é a escolha de uma experiência pessoal que ilustre a argumentação apresentada na redação – o exemplo é extraído da realidade, enquanto o argumento é obtido por meio do raciocínio. "O texto é a possibilidade que cada um tem de dizer a sua palavra para o outro, sem modelos" – sintetiza Maria Alice.

Zero Hora, 03/01/2000.

 

 

Como é feita a avaliação da redação da UFRGS.

 

As redações da Universidade Federal do Rio Grande do Sul passam, cada uma, por duas avaliações: uma de caráter holístico e outra de exame analítico.

A avaliação holística consiste em uma apreciação de aspectos gerais do texto – se fugiu ou não do tema proposto, se está correto do ponto de vista gramatical e se é coeso e coerente, entre outros itens. Essa leitura resulta em uma nota de zero a 10.

A avaliação analítica observa aspectos específicos da redação e está dividida em duas partes. O primeiro item - estrutura e conteúdo - está associado a vários aspectos relativos à organização do texto e à relação entre forma e conteúdo (clareza, consistência, caráter dissertativo, criticidade, qualidade estilística, autonomia, estrutura do parágrafo, coesão textual, competência da argumentação e organicidade).

O segundo item – expressão - observa a quantidade de erros gramaticais, em aspectos como ortografia, pontuação, concordância e adequação e precisão do vocabulário. A nota de estrutura e conteúdo é de zero a 30 e a de expressão, de zero a 20. Posteriormente, o valor é calculado para uma nota de zero a 10.

Cada avaliação é feita por professores diferentes. Se a diferença entre as notas de cada avaliação for maior de 2,5 pontos, o texto é passado para a equipe de recorreção, que refaz todo o processo.

Os especialistas em correção são selecionados por meio de um teste. Os critérios atuais de correção foram adotados pela UFRGS no vestibular de 1998. Os itens autonomia, coesão textual, competência da argumentação e qualidade estilística foram acrescentados com o objetivo de privilegiar textos nos quais estão bem identificadas as idéias dos autores.

Conforme a professora Sabrina Abreu, da coordenação geral da correção das redações, a universidade pretende divulgar ainda mais os critérios de avaliação. "A redação da UFRGS tem a intenção de convidar o aluno à reflexão, por meio de uma experi6encia pessoal. Queremos difundir mais os critérios, pois isso tira bastante da angústia dos candidatos e tranqüiliza os professores." diz Sabrina.

 

PEÇA POR PEÇA, A ANÁLISE DA DISSERTAÇÃO

 

O fator Estrutura e Conteúdo constitui uma parte importante da avaliação analítica das redações da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Veja o que é observado em cada um dos itens em que o tópico está dividido:

1 – Ângulo de abordagem:

1.1 – Clareza: Os avaliadores não exigem que o autor apresente a idéia central de sua dissertação logo no primeiro parágrafo. Mas o ponto de vista do vestibulando – o que ele realmente pensa sobre o tema proposto – tem de estar explícito no texto. A redação tem de assumir, efetivamente, uma posição, não ficar em cima do muro.

OBS.: se o texto foge parcialmente do tema proposto, a nota será calculada apenas com metade do peso. Se for identificada uma fuga total do tema, a nota é zero.

1. 2 – Consistência: O texto não pode desviar-se do ponto de vista apresentado. Toda a dissertação tem de girar em torno da posição manifestada, sem contradições. O desdobramento da redação, até a conclusão, deve atender ao que foi anunciado na apresentação do ponto de vista. Os exemplos usados têm de estar relacionados aos argumentos e, este, ao ponto de vista central.

1.3 – Autonomia: O texto tem de revelar esforço pela autoria, apresentar subjetividade e, por conseqüência, gerar interesse no leitor. A autonomia do texto manifesta-se quando o redator organiza as idéias seguindo seus próprios critérios, não se apegando a modelos prévios ou a lugares-comuns.

2 – Estrutura do parágrafo

A maioria dos parágrafos do texto deverá ter, no mínimo, dois períodos. Mas não há um limite rígido para o numero de linhas do parágrafo. O que é analisado é se cada parágrafo expressa uma idéia completa e se a divisão em parágrafos favorece a progressão do texto, evitando a repetição de afirmações.

3 – Coesão textual

Esse item avalia as relações internas do texto: se a estruturação das orações é adequada à argumentação, se os nexos estão de acordo com a hierarquização das idéias e se o autor se utiliza corretamente dos recursos gramaticais para enriquecer a redação.

4 – Caráter dissertativo

Embora a redação da UFRGS exija a presença de uma narração de experiência pessoal para ilustrar a argumentação, o texto final deve ser predominantemente dissertativo, ou seja, a narração estará a serviço da dissertação. O objetivo da redação é a reflexão, não apenas o relato ou a descrição.

OBS.: redações que apresentam predominância da narração ou da descrição sobre a dissertação são avaliadas com metade do peso. Se o texto é apenas narrativo ou descritivo, sem qualquer característica de dissertação, recebe nota zero.

5 – Competência da argumentação

Os argumentos devem explicar o ponto de vista do autor. São a forma de o redator justificar sua opinião. Um bom teste para identificar a qualidade da argumentação de um texto é perguntar "por quê?" à frase que sintetiza o ponto de vista. Se as respostas aparecerem na redação, a competência da argumentação foi alcançada.

6 – Criticidade

O texto não pode refletir apenas o "umbigo" do autor. Também tem de ser confrontável com a realidade. Esse item avalia a relação lógica entre o texto e a realidade objetiva. Por isso, a reflexão do autor não pode ser alienada. Tem de estar associada ao contexto.

7 – Organicidade

Aqui, o avaliador verifica o uso adequado de processos próprios do conhecimento – comparação, análise, classificação e definição, por exemplo. Estão em jogo a dinâmica da argumentação e o emprego de recursos paralelos à reflexão, como citações, dados estatísticos ou argumentos históricos.

8 – Qualidade estilística

O texto deverá apresentar uma linguagem precisa, com vocabulário rico e, ao mesmo tempo, adequado ao ponto de vista apresentado e ao estilo do autor. O uso de gírias, por exemplo, não é condenado, desde que os termos adotados tenham relação com a idéia central do texto e não signifiquem pobreza de vocabulário

Fonte: professora Maria Alice Kauer e Manual do Avaliador do vestibular 2000 da UFRGS.

 

 

 

 

 

As redações a seguir, foram feitas no vestibular de 99 da UFRGS e corrigidas pela banca. A primeira delas foi considerada excelente; a segunda razoável. Não foi fornecida pela UNIVERSIDADE a nota, n entanto servem como modelos.

 

Competir é viver

Uma das características intrínsecas à vida em sociedade é, sem dúvida, a competição. A convivência com semelhantes, nas mais diversas atividades humanas, leva à constante comparação de desempenhos. A concorrência entre os indivíduos, desde que se respeite um determinado limite, pode ser benéfica.

Em janeiro passado, eu participei da Travessia do Pontal de Tapes, uma prova de oito quilômetros de natação. Nadei todo o percurso ao lado de outros atleta, que possuía larga experiência em travessia. O fato de nadar com ele ajudou-me a manter um excelente ritmo durante a prova. Além disso, a competição com outros nadadores garantiu a motivação necessária para superar mais de duas horas de natação. De modo geral, a comparação de desempenhos pode levar os indivíduos a descobrir suas próprias capacidades. O desafio inerente às competições estimula o ser humano a ultrapassar seus próprios limites. A maior consciência das próprias potencialidades obtida nessas situações promove um importante crescimento pessoal.

Entretanto, o espírito competitivo em excesso e a obsessão pela vitória provocam um estresse muito grande, prejudicando a saúde do organismo humano. Altos níveis de adrenalina no sangue, por períodos prolongados, levam ao colapso do sistema nervoso. Esse fato pode ser comprovado pela freqüência crescente de doenças como a depressão, a síndrome do pânico, os problemas cardiovasculares, entre outros. Indivíduos excessivamente competitivos dificilmente sentem-se plenamente realizados, pois, na luta pela vitória esquecem o importante aspecto humano da vida, a convivência com outras pessoas.

Ser o primeiro não significa, na maioria das vezes, ser o mais feliz. Saber competir pode ser uma qualidade valiosa na busca de nossas potencialidades, auxiliando-nos a evoluir como atleta estudante ou profissional.

 

Competição: fator desencadeante de virtudes e defeitos.

 

A competição sempre foi um dos fatores responsáveis pela organização social. Desde épocas muito remotas o homem já competia com o seu semelhante; porém, com o passar do tempo, competir parece ter perdido o seu real significado.

Competir, atualmente, tornou-se uma forma de vencer a tudo e a todos, desrespeitando até mesmo os limites da moral humana ( ainda que cada vez menor). A propósitos, lembro-me de um fato que ocorreu comigo, fazia um curso pré-vestibular e me esforçava bastante. Certo dia um professor, num ato de total falta de ética, disse aos meus colegas que eu achava que sabia mais do que ele e que por isso eu não passaria no vestibular. Invejosos, todos o aplaudiram. Mais tarde, refletindo melhor, pude entender que tudo aquilo aconteceu porque lá existia um excesso de competitividade associado à inveja que alguns sentiam do meu esforço.

Apesar de a competição gerar efeitos negativos como a inimizade, o egocentrismo, a falta de sensibilidade e o desrespeito aos limites impostos, ela também nos apresenta virtudes. Se não houvesse nenhuma competição entre os seres, a vida não teria a razão que tem, e as conquistas não teriam o menor valor. Além disso, para que vivêssemos com tecnologia, indústria, classes sociais, foi necessário, por exemplo, que espanhóis e portugueses lutassem pelo domínio das terras descobertas com a navegação, que russos e americanos competissem pela melhor tecnologia para viajar ao espaço. Foi essa competição que criou o mundo do qual fazemos parte.

Na verdade, competir é um instinto humano. graças a ele vivemos como vivemos hoje; porém, o seu sentido real deve ser resgatado, a fim de que vivamos melhor.