CURIOSIDADES

Você já se deu conta da infinidade de vocábulos em língua estrangeira que utiliza no seu dia-a-dia? Não!? Basta pegar um ônibus e prestar atenção nos nomes das lojas de uma grande avenida desse brasilzão. Pelo menos, ajuda a passar o tempo.

Nem vamos discutir sobre o motivo que nos leva a usar tantos estrangeirismos (papo pra sociólogo). Mas que é preocupante é. Empréstimos lingüísticos enriquecem a língua, sem dúvida, no entanto quando começamos a substituir fim de semana por "week-end", fazer compras por "fazer shopping", cara, sei não... Não vamos chegar ao exagero purista de nunca mais pronunciar "piquenique", substituindo-o por "convescote" (!), mas também é exagero empregar "sale" no lugar de "liquidação".


1º NICE LÍNGUA - Jornal do Brasil

Jason Tercio

ão precisa ser new wave nem globetrotter para saber que o grande must no Brasil entre o people que lê é ter à mão um dictionary inglês-português. A mídia se moderniza. Está acontecendo um novo boom do idioma de Shakespeare, ou de Boy George. Dark que é dark percebe muito bem isso. Mesmo não sendo hardcore. O negócio é não ficar out no meio da crowd.

Como escreveu um amigo, "poeta não é businessman". Mas tampouco deve negligenciar o inglês e o dictionary. Três poetas, desses que dão performances no Botanic (cujo staff é de primeira) foram recentemente chamados de junky por um(a) repórter, que talvez nunca tenha lido junkie, o primeiro livro de William Burroughs.

Legal é botar na t-shirt um button (ou cadge, como dizem na Inglaterra) escrito "I English". Tem gente que às vezes se engana - ou não consulta o dictionary - e escreve/fala bottom, que significa, entre outras coisas, "fundo" e "traseiro" ou "bunda".

A culpa é toda do descobridor. Se tivesse deixado os ingleses nos descobrirem, estaríamos livres desses vexames. Certo, brother?

A língua portuguesa está ficando pobre, cada vez mais. As palavras realmente in não têm equivalentes no Brasil. Aquele gigantesco dicionário do Aurélio bem que poderia incluir na próxima edição a riqueza de nosso vocabulário inglês, sem aportuguesar as palavras.

O charme é usar, seja numa reportagem, num folder ou num outdoor termos em inglês - revela erudição e funciona também como marketing cultural. O leitor respeita quem usa palavras estranhas.

E tem mais: qualquer show só ganha clima de Saturday night fever quando a música é em inglês, melhor ainda se for do hit parade. Agrada a todos, do beautiful people do showbis e punks da periferia, aos gays de todos os points. Tudo vira, com rock’n roll, uma permanente happy hour.

Wow!

Se alguém quiser entrar na mailing list dos principais happening culturais deste país tem que saber inglês. Ninguém vai a uma party, a um cocktail only for men, only for women ou mixed sem levar na ponta da língua o inglês, ou no bolso um dictionary.

Este é o layout do new Brasil. Um país entre o hot money e o lucro overnight. Em permanente joint venture com a língua alheia, única fashion que não muda. Know how pra copiar temos de sobra.

Please, não nos queira mal, língua portuguesa; é que o inglês tem um feeling especial.

Até no camping se precisa de dictionary, de repente.

Os que não manjam inglês nem possuem dictionary não precisam ficar down ou procurar analista para entender essa overdose de palavras estrangeiras. O jeito é tentar ser cool e tudo acabará okay.

Importante também é ser clean.

Relax, portanto, porque o inglês não é apenas moda, dessas que enchem as manchetes e desaparecem (das manchetes) – vampiro, aids, aedes, besteirol, MAC, drogas (campanha contra), estupros, terapias do corpo, separações, virgindade, democracia.

Indo ao downtown ou comprando um poster, uma jeans ou um gadget qualquer num shopping em época de sale é imprescindível levar dictionary.

Redigir press release sem o dito cujo é a maior fria.

Para ser um dos happy few com chances de namorar a mais recente top model da praça ganha ponto falar inglês de preferência com sotaque gaúcho.

Ora, direis, nonsense.

Mas é verdade que o Brasil é um dos países onde mais se macaqueia inglês. Persistimos. E que ninguém tente conter essa tendência porque perde todos os rounds: vai ser chamado de purista, careta, xenófobo ou, pior, ignorante e acabará numa bad.

Talvez seja tudo uma questão de timing. Quem sabe não estamos inventando o portinglês, sem necessidade de pagar copyright, pedindo emprestado uma língua sem pagar spread , explorando outra linguagem sem pagar roaylties. Ninguém perde por esperar: o portinglês será anunciado em briefing para todo o Brasil, cadeia nacional.

Last but not least: falar ou escrever em inglês melhora inclusive o look da pessoa, mesmo sem ser expert no idioma. Façamos então um lobby em favor do portinglês. Alguém pode dar um help?

PS: ARGH!

 

2º Estrangeirismos adaptados para o português - Zero Hora

 

Professores e universitários da PUC do Rio Grande do Sul produzem um dicionário com 3 mil novos verbetes

Fazer um check in, ir ao shopping tomar um milk shake ou mover um mouse são atividades corriqueiras para milhões de brasileiros. Mas as palavras que as denominam não pertencem à língua portuguesa. Por isso, um grupo de professores e alunos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) pretende converter esses termos invasores do idioma pátrio, aportuguesando a pronúncia e a escrita em um dicionário que brevemente será lançado. Conforme a adaptação proposta, os brasileiros passariam a fazer um chequin, iriam ao xópin, tomariam um milquecheique e moveriam o mause.

As mudanças na grafia podem parecer estranhas à primeira vista, mas se trata do mesmo processo pelo qual já passaram palavras como iate (derivada do inglês yacht), lanche (do inglês lunch), abajur (do francês abat-jour) ou coquetel (do inglês cock-tail). A diferença é que, antigamente, o número de estrangeirismos e a velocidade com que eles entravam na vida das pessoas eram menores, permitindo uma adaptação mais fácil dos termos importados pelo português.

"A influência da cultura norte-americana e o avanço da tecnologia mudaram isso, e há uma avalancha de palavras novas, principalmente na área da Informática", explica o coordenador do Departamento de Letras Vernáculas da PUC, Volnyr Santos, que também comanda a equipe de produção do Dicionário Essencial da Língua Portuguesa, como é chamada a obra. "Não há tempo para uma sistematização da grafia, e as palavras de outras línguas acabam sendo utilizadas por nós na sua forma original."

Por essa razão, usa-se correntemente o termo shopping, embora o conjunto sh seja estranho ao português (que estabelece a letra xis para substituí-lo). Santos sabe que a tentativa de mudança pode gerar polêmica, já que nas próprias salas de aula os alunos se mostram surpresos com as novas formas adquiridas pelas palavras que eles estavam acostumados a usar. "Mas quando eu mostro que bife vem do inglês beef, por exemplo, eles aceitam melhor", afirma.

Segundo Santos, a regularização dos estrangeirismos seria uma tentativa de salvaguardar a língua de Camões das constantes agressões externas. "Se a incorporação dessas palavras novas é inevitável pela pressão cultural e econômica, devemos pelo menos aportuguesá-las", acredita. O professor também critica a falta de uma política nacional para o idioma, como existe em outros países. Na França, por exemplo, não se pode escrever estrangeirismos em documentos oficiais. "No Brasil, não existe normatização alguma", lamenta o coordenador da PUC.

O dicionário conta com 3 mil estrangeirismos, que são separados dos cerca de 30 mil verbetes normais. O Aurélio conta com cerca de 1,5 mil palavras adaptadas.

Apesar de a conversão das palavras estrangeiras ter despertado o interesse dos pesquisadores, o objetivo primordial da equipe de professores e estudantes do Rio Grande do Sul é produzir uma obra enxuta, para consulta principalmente de jovens, que costumam utilizar palavras em inglês. Entre as outras novidades do dicionário estão a separação silábica dos verbetes e a reunião deles por campo de significado. A palavra poesia, por exemplo, virá acompanhada de poema, poeta e outras. O grupo também pretende evitar definições pouco elucidativas. Em muitos dicionários, o verbete "direito" é explicado como "oposto ao esquerdo", e esquerdo como "oposto ao direito".

Como vão ser adaptadas para o português palavras em outros idiomas:

PALAVRAS JÁ APORTUGUESADAS POSSÍVEL GRAFIA

 

3º NOSSO IDIOMA – Uma pátria sem fronteira

Cultural News

Uma proposta de professores do Instituto de Letras e Artes da PUCRS está provocando as mais diversas reações em professores e estudiosos da língua portuguesa. Para alguns, significa uma agressão ao idioma nacional. Para outros, é a representação escrita de um processo natural e antigo pelo qual passam todas as línguas. Trata-se do Dicionário Essencial da Língua Portuguesa. É, no mínimo, motivo de reflexões acerca dos usos e desusos do nosso português.

"A língua é minha pátria", já dizia o músico Caetano Veloso, em concordância com a frase "minha pátria é a língua portuguesa", do poeta Fernando Pessoa. Segundo o escritor Oswald de Andrade, "a língua é a soma milenar de todos os nossos erros". Para muitas e menos célebres pessoas, o idioma é como uma propriedade, um elemento intrínseco à cultura e à tradição de um povo. Tanto que, num primeiro momento, incorporar termos estrangeiros eqüivaleria a um adultério, ou a um furto de um objeto pessoal.

No entanto, basta observar um pouco a História para perceber que a língua é o reflexo de uma fusão de culturas, é uma "adaptação" aos novos tempos – assim como acontece na teoria do naturalista inglês Charles Darwin, que explica a formação de novas espécies por um processo de seleção natural. Sob esta premissa, não deveria haver motivos para tanta celeuma em torno do Dicionário Essencial da Língua Portuguesa, uma produção de professores do Instituto de Letras e Artes da PUCRS.

Para o professor Volnyr Santos, coordenador do Departamento de Letras Vernáculas da PUCRS, que comanda a equipe de produção do livro, certas pessoas rejeitam a proposta por ela "estar mexendo em coisas estabelecidas". "Se está assim, por que mexer?", diriam. A questão é que nada é tão estabelecido e estático assim. "O que queremos mostrar é que não estamos fazendo nada diferente, nada doido, e sim, algo que tem tradição na língua", diz o professor.

Além do desconhecimento quanto ao processo de evolução de um língua, um outro fator contribui para as controvérsias sobre o dicionário: a mitificação. Volnyr Santos explica: "Nós vivemos em uma fase da cultura em que a imagem é muito forte. A língua estrangeira, especialmente o inglês, traz um certo status para o usuário da língua. Hoje em dia, isso é quase uma necessidade do ponto de vista cultural, mas, quando as pessoas utilizam termos ingleses sua relação pessoal, elas se sentem um pouco privilegiadas."

Quando alguém diz que vai tomar um refrigerante light, por exemplo, essa expressão denota um caráter diferencial. Portanto, ao propor a grafia portuguesa para palavras de outros idiomas, o dicionário está, de certo modo, desmitificando a forma estrangeira. "Então, as pessoas que estão acostumadas com a palavra shopping e passam a vê-la como xópin têm a impressão de que não se trata da mesma coisa." Tudo é uma mera questão de costume. Quem é que pára para pensar que as corriqueiras palavras confete e lanche são, respectivamente, versões portuguesas da italiana confetti e da inglesa lunch? Há algum tempo suas grafias também pareciam "estranhas", mas agora elas estão incorporadas de tal forma na língua portuguesa que é até difícil imaginar que suas origens pertencem, de fato, a outras línguas. Da mesma forma, há os termos drinque (do inglês drink), chofer (do francês chauffer) e gueixa (do japonês gueisha), entre tantos outros.

Então, qual o problema em tomar um milquecheique, fazer um escâner de uma imagem ou, brincando com o mause, navegar por interessantes saites da Internet?

Exemplos:

Estrangeirismos já aportuguesados (constantes do Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa)

Bric-à-brac (francês) - bricabraque

Cake (inglês) - queque

Confetti (italiano) - confete

Pickles (inglês) - picles

Sweater (inglês) - suéter

Scratch (inglês) - escrete

Trolley (inglês) - trole

Twist (inglês) - tuíste

Yatch (inglês) - iate

Algumas propostas do dicionário da PUC

Affaire (francês) - afer

Air bag (inglês) - erbegue

Display (inglês) - displei

Feedback (inglês) - fidebeque

Full time (inglês) - fultaime

Laser (inglês) - lêiser

Lingerie (francês) - langerri

Merchandising (inglês) - merchandáisin

Sukiyaki (japonês) - suquiáqui

Training (inglês) - tréinin

 

4º A Influência da informática

E por falar em Internet... Esta rede, mais uma onda que veio para ficar nesse infinito mar de tecnologia e informática, é a grande propulsora e propagadora do inglês como língua universal. Tudo a um ritmo frenético – assustador para alguns, sem volta para todos. É o ritmo da tal globalização, que ameniza as distâncias entre países, povos e culturas.

"Quando se fala em globalização está-se referindo a uma coisa mais ampla, que atinge não só a questão econômica, pois junto com ela vem tudo que diz respeito à economia e ao mundo que expressa tudo isso. É difícil as pessoas tentarem impedir esse processo, que é quase vital", constata Volnyr.

Com a informatização, caem por terra até mesmo os argumentos dos mais xenófobos. Aceitar os estrangeirismos é uma tendência moderna e necessária, conforme acredita Édison de Oliveira, professor universitário licenciado em português, latim, grego e suas respectivas literaturas.

"A gente aceita os estrangeirismos, em primeiro lugar, porque isso é progresso; em segundo lugar, como é que iríamos nos sintonizar com a informática se não utilizássemos os termos da informática? Além disso, aumenta o nosso vocabulário", justifica Édison.

De acordo com os professores, não há razão nenhuma para abandonar o estrangeirismo. Se em inglês existe a palavra print, em português surgiu o verbo printar. Embora no Brasil já existia o imprimir, aceitar o printar não vai prejudicar a língua portuguesa, conforme Édison. Pelo contrário. "Em vez de termos só a palavra imprimir nós vamos ter duas: imprimir e printar."

Um pouco de história

Para Édison de Oliveira, a idéia do dicionário dos professores da PUC não é uma proposta absurda. "É a continuação de um propósito", afirma. Afinal, na maior parte de sua história, a língua portuguesa sempre foi influenciada por estrangeirismos.

No ano em que o Brasil foi descoberto, o idioma de Portugal sofria fortes influências do espanhol. O país recebia grande quantidade de estrangeirismos. A elite portuguesa tinha o hábito de usar palavras estrangeiras e até escrevia metade das obras em língua portuguesa e a outra metade em espanhol - muitas vezes, somente em espanhol. Até mesmo Luís de Camões, poeta clássico por excelência da língua portuguesa, escreveu algumas poesias em espanhol.

É claro que naquele tempo não havia a comunicação que existe hoje, e, então, a proximidade entre Portugal e Espanha levou a língua espanhola a exercer grande influência na língua portuguesa.

Hoje é diferente. Embora sofra algumas influências do francês e do inglês, Portugal reage muito mais à "invasão" dos estrangeirismos do que o Brasil. Por exemplo: mesmo usando calça jeans - bem menos do que os brasileiros - , a juventude portuguesa não fala jeans, e sim, "calça de ganga". O professor Édison cita um outro caso: segundo ele, a palavra chiclete não existe em Portugal - nem no dicionário, nem na linguagem do povo -, eles dizem goma elástica.

No Brasil, a grande invasão dos estrangeirismos começou na segunda metade do século passado, fundamentalmente pela língua francesa. Ela foi intervindo na elite intelectual e social a tal ponto que, até mesmo no início desse século, apresentavam-se peças no teatro com o original todo escrito em francês. Na platéia, havia os que compreendiam muito, os que entendiam apenas algumas partes e aqueles que nada assimilavam, mas que compareciam porque isso dava status.

Depois que a invasão da língua francesa tornou-se muito evidente e começou a ser muito dominante, a gramática brasileira resolveu reagir. Os gramáticos e as escolas começaram a proibir o uso de galicismos (palavras, expressões ou construções francesas). Nessa época - lá pela década de 20 - também acontecia o mesmo em Portugal. Eça de Queiroz, grande escritor português, foi acusado de galicista pelos gramáticos. "Hoje em dia ninguém dá mais bola para isso", comenta Édison.

Na opinião do professor, os gramáticos usavam um sistema muito radical para combater os galicismos. Quando existia a palavra em português, era ela que tinha que ser usada. Exemplo: em português existiam as palavras pormenor, minúcia e minudência. Mas o francês introduziu no Brasil a palavra "détail", e daí surgiu o "detalhe". Entretanto, em sua redação o aluno não poderia escrever a palavra detalhe.

Há outros exageros. Quando a palavra não possuía uma correspondente em português, os gramáticos faziam a tradução baseada no latim. O que pensar de alguém que pratica ludopédio? Não, isso não é nenhum crime (ludus, em latim, significa jogo, e pédio refere-se a pé). Significa simplesmente futebol, o esporte que é a cara do Brasil. No entanto, por ser uma palavra derivada do inglês football (o jogo foi inventado na Inglaterra, logo, não havia nenhum termo sinônimo aqui, no país do Pelé e do Ronaldinho), a expressão futebol acabou ficando, e hoje ela parece ser mais nossa do que de qualquer outro lugar do mundo! Esse é apenas o início da forte influência do inglês na língua portuguesa...

A partir de 1945, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, cresceu muito a influência da língua inglesa no Brasil. Os Estados Unidos destacam-se como a grande nação dominadora do mundo pelas forças políticas e econômicas; acentua-se a propaganda maciça pelo cinema, pelas canções, pelos produtos industrializados, alimentícios e outro mais. A invasão dos termos ingleses está se dando cada vez com mais força pela linguagem técnica: informática, televisão, Internet, etc.

"Com todos esses acontecimentos a nossa volta, nós entendemos que as palavras que estão em uso corrente são as que vieram para ficar. E se vieram para ficar, fazem parte do nosso vocabulário, vamos usá-las com a nova ortografia." É o que propõe o professor Volnyr Santos com o novo dicionário, que certamente ainda vai dar muito o que falar...