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As dificuldades dos alunos de escolas públicas em universidades de ponta

16/04/12 -   F:  Ciência Hoje

Estudo revela que as dificuldades de universitários egressos da rede pública não se resumem ao vestibular e acompanham os estudantes por toda a graduação. Pesquisadora defende formação contínua de professores e uma atenção diferenciada a esses alunos.


A permanência de estudantes em cursos de graduação de universidades de ponta depende de diversos fatores, como condição financeira, apoio familiar, envolvimento social, dedicação, além de interesse e satisfação pelo curso escolhido. Novos estudos, porém, apontam a importância de outro elemento: a procedência escolar.

"Alunos que cursaram o ensino médio em escolas públicas enfrentam mais problemas e têm chances maiores de deixar o curso precocemente ou passar por dificuldades críticas."

De acordo com pesquisa desenvolvida por Valéria Cordeiro Fernandes Belletati em seu doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), alunos que cursaram o ensino médio em escolas públicas enfrentam mais problemas e têm chances maiores de deixar o curso precocemente ou passar por dificuldades críticas, que vão desde falta de tempo até o desempenho insuficiente.

Em maio de 2009, Belletati entrevistou 42 alunos ingressantes, 10 futuros biólogos, 11 do curso de licenciatura em física e 21 de letras – todos da USP, que, desde 2006, possui ferramentas para facilitar o ingresso de alunos que cursaram o ensino médio em escolas públicas – por meio do Programa de Inclusão Social e do Programa de Avaliação Seriada, o estudante pode ter um bônus de até 15% em sua nota do vestibular.

Os três cursos foram escolhidos por serem de média seletividade, representar áreas distintas do conhecimento e “por terem altos índices de evasão geral no semestre de ingresso e altos números absolutos de ingressantes de escola pública”, justifica a pesquisadora.

O questionário incluía perguntas pessoais sobre os ingressantes, como idade, trabalho, procedência escolar, tempo gasto para chegar à USP, preparo em cursinho pré-vestibular e uso de bolsa de estudos. Além disso, os estudantes consultados tinham espaço para relatar suas dificuldades iniciais, relacionamento com colegas e professores, desempenho pessoal e satisfação com as aulas e com o curso escolhido.

Ao fim do primeiro semestre de 2010, a educadora voltou a entrevistá-los. “Retomei contato apenas com os alunos participantes que haviam cursado todo o ensino médio não profissionalizante em escolas públicas, que atendem a maioria dos estudantes em condições socioeconômicas menos favorecidas da nossa população”, explica Belletati. Nessa rodada de entrevistas, foram entrevistados seis alunos do curso de letras, três de licenciatura em física e um de ciências biológicas – 10 no total.

Desta vez, foram questionados sobre como enfrentavam as dificuldades mencionadas na entrevista anterior, sua vida escolar no ensino médio, escolaridade de seus familiares e como achavam que esses fatores influenciavam seu desempenho na graduação.

Corrida de obstáculos

A falta de tempo foi a dificuldade número um apontada pelos graduandos. “O tempo é mais escasso para alunos em condições econômicas desfavoráveis porque estes exercem atividade remunerada e perdem muitas horas em deslocamento para a universidade”, explica a autora da tese. Além disso, os alunos consideraram os exames complicados e reclamaram que as dificuldades apresentadas nas provas não eram revistas.

“Os alunos percebem lacunas de aprendizagem de conteúdos que deveriam ter aprendido na educação básica e consideram alguns conteúdos novos muito complexos”

A formação anterior ao ingresso também foi colocada como um problema. Segundo a educadora, “os alunos percebem lacunas de aprendizagem de conteúdos que deveriam ter aprendido na educação básica e consideram alguns conteúdos novos muito complexos”.

Nos cursos de letras e licenciatura em física, apesar das barreiras, os índices de evasão de alunos egressos de escolas públicas foram inferiores aos dos provenientes de escolas particulares. Por outro lado, em ciências biológicas, a evasão foi consideravelmente maior entre os estudantes vindos de escolas públicas (7,4%) do que os ex-alunos de escolas particulares (1,6%).

Quando são analisados cursos mais concorridos, essa situação se torna mais recorrente. O curso de publicidade e propaganda, por exemplo, teve 13,6% de evasão de alunos de escolas públicas contra apenas 2,4% de alunos vindos de escolas particulares. A situação é parecida em cursos como medicina (1,8% contra 0,2%), odontologia (5,7% contra 2,6%), arquitetura (3,7% contra 0,7%) e relações internacionais (6,6% contra 4,2%). 

Atenção diferenciada

Para Belletati, a formação pedagógica dos professores – que hoje não é exigida – é essencial para a melhoria desse quadro. Normalmente, o docente não conhece o passado do aluno, o que impede uma atuação diferenciada, avalia a pesquisadora, que defende a formação contínua e institucionalizada dos formadores.

"Normalmente, o docente não conhece o passado do aluno, o que impediria uma atuação diferenciada."

Dessa forma, os professores estariam mais bem preparados para ajudar os alunos com mais dificuldades, que, segundo o estudo, precisam de auxílio para organizar seu tempo, superar lacunas de aprendizagem da educação básica e aprender a estudar na universidade – “que é muito diferente, pois, nesse nível de educação, precisam atingir níveis de compreensão necessários a criação, reflexão e teorização”.

Belletati acredita que uma formação pedagógica permanente também possibilitaria uma reflexão mais profunda sobre a função da universidade, “que entendemos ser a formação profissional, científica e política.”

“Ela também permitiria um debate mais amplo sobre a elitização da universidade, tanto no ingresso como no seu interior, e sobre outras questões específicas da docência”, conclui a pesquisadora.