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De Porto Alegre para Boston

- -   F:  CA - 24/04/08 - www.zerohora.com.br



Entrevista: Gabriel Dalla Costa, Médico








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Gabriel Dalla Costa, 25 anos, formou-se pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em dezembro de 2006. É residente em Medicina Interna no Hospital Conceição, em Porto Alegre, e tornou-se estagiário no Brigham and Women´s Hospital, da Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos. A oportunidade surgiu por meio da Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar. Ela incentiva residentes e jovens médicos a cumprirem estágios e imersões em hospitais americanos que desenvolvem a especialidade que pretendem criar no Brasil. Por e-mail, Gabriel concedeu entrevista ao caderno Vestibular. Confira:

Vestibular - O mais lhe atrai na medicina hospitalar?

Gabriel
- É o fato de trabalhar com a constante preocupação de estratégias para uma hospitalização mais segura e breve, garantindo satisfação sem desperdiçar recursos terapêuticos e diagnósticos.

Vestibular - Como é o trabalho nos EUA?

Gabriel
- No hospital, cumprimos rotinas pré-estabelecidas que se baseiam em informações exaustivamente pesquisadas, de acordo com os mais recentes avanços publicados no meio científico. Também trabalhamos gerenciando banco de dados e a interação entre as equipes (enfermagem, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, farmácia, psicologia etc).

Vestibular - Seria uma volta do médico na administração hospitalar?

Gabriel
- Não, o modelo hospitalista coloca o médico no papel central do atendimento hospitalar. Isso traz valorização para a medicina e evita a descontinuidade de informações sobre o paciente. Na maioria das vezes, não é o mesmo médico que realiza os dois atendimentos (ambulatório/hospital). Além da descontinuidade que ocorre pela troca de médico, não há um mecanismo de comunicação adequada entre os profissionais, tanto na baixa quanto na alta do paciente. Faltam informação adequada e comunicação entre médicos e diferentes equipes de saúde, e o paciente recebe a carga pela falta de organização.

Vestibular - Como ocorre essa falta de organização?

Gabriel
- Vamos imaginar o clínico que tem 10 pacientes internados e precisa atender no consultório. Como dar atendimento adequado com uma ou duas visitas diárias ao paciente internado e ainda atender o consultório com qualidade? A solução proposta é imaginar uma equipe de hospitalistas responsáveis por gerenciar a internação do início ao fim, entregando o paciente ao seu médico de origem após o término da internação. Não se discute a importância de especialistas competentes. Discute-se sim, o uso abusivo e desnecessário do sistema de consultorias, que fragmenta e encarece o atendimento, sem claro benefício documentado.

Vestibular - Quais os planos ao voltar para o Brasil?

Gabriel
- Procurar difundir ao máximo os aspectos positivos da medicina hospitalar e ajudar nosso país a oferecer um atendimento mais qualificado. Temos ótimos médicos, mas falta organização. A medicina hospitalar pode modificar nosso sistema de saúde. Em dados reais, em um grande hospital da capital gaúcha que atende pelo SUS, a média de internação em leito de medicina interna é de 12 a 13 dias. Em um grande hospital de Boston (EUA), que mantém serviço de medicina hospitalar, a média é de três a quatro dias. A aplicação desse modelo no país poderia ser fonte imensa de recursos e qualidade.

Vestibular - Qual o futuro dessa especialidade no país?

Gabriel
- Requer uma ampla discussão e transformação. Pode ser encarada como um grande desafio. A expectativa é imensa, embora ainda estejamos em estágio embrionário de implementação. Há um esforço formidável de jovens médicos gaúchos. Nos EUA, é a especialidade que apresentou o maior crescimento da história.

Vestibular - Qual a tua dica para quem está se formando e já se interessa pela área?

Gabriel
- A medicina é fascinante em todos os seus aspectos. É preciso estudar com afinco e buscar aprimoramento dia após dia. O dinheiro vem, mas certamente é algo secundário quando comparado a satisfação de realizar uma ciência em sua plenitude e excelência. Dedicação ao paciente - e também à vida pessoal - é um bom caminho. É preciso ser técnico brilhante, mas antes de tudo, um caloroso ser humano. Isso é ser médico de verdade, em qualquer área de atuação.