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Charles Darwin, o pai da teoria da evolução

- -   F:  UFRGS

Em 2009, será celebrado o “Ano de Darwin”. Entre as comemorações, estão o bicentenário de seu nascimento e os 150 anos da obra A Origem das Espécies, que marcou a Ciência desde sua publicação em 1859.


O naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809-1882), é considerado o “pai da teoria da evolução”. Entre os escritos decorrentes das observações realizadas a bordo do navio Beagle, ele desenvolveu a teoria da seleção natural como mecanismo da evolução. Essa odisséia durou quatro anos e nove meses, com duas passagens pelo Brasil, onde Darwin ficou fascinado pela diversidade de animais invertebrados e chocado com a escravidão.

Com apenas 22 anos, embarcou no veleiro da marinha inglesa que tinha como objetivo cartografar o Hemisfério Sul. Graças a essa viagem, o jovem descobriu que todos os seres vivos podem ter sua linhagem ancestral traçada até a origem da vida na Terra. Isso colocou em xeque as velhas crenças religiosas vigentes à época, segundo as quais tudo o que existia na natureza era obra exclusiva de Deus.

Para Aldo Mellender de Araújo, professor do Departamento de Genética da UFRGS, “quando Darwin escreveu A Origem das Espécies imaginou que a evolução era a relação ancestral/descendente de todos os organismos do planeta”. Para explicar essas relações no tempo, elegeu como mecanismo o conceito de seleção natural, princípio que remove da população todas as variações desvantajosas e deixa as vantajosas. “Numa população, de qualquer organismo, se existe variação, é bem possível que haja seleção natural associada a essa variabilidade”. Aldo acrescenta que hoje, com o neodarwinismo, a idéia de seleção natural abrange outras questões.

Neodarwinismo – “O que se ensina hoje nos cursos de Biologia é baseado remotamente nas idéias de Darwin e mais recentemente no neodarwinismo, o qual, em alguns pontos, distancia-se bastante das idéias do naturalista.” A frase é de Anna Carolina Regner, filósofa e professora aposentada da UFRGS, que defendeu tese de doutorado baseada no pensamento do cientista inglês. Ela comenta que, do ponto de vista epistemológico, a leitura direta de Charles Darwin é muito mais rica do que suas mediações do século XX.

O geneticista Aldo Araújo diz que o novo darwinismo é uma retomada dos princípios do naturalista com uma abordagem genética, área desconhecida quando a teoria da evolução foi lançada: “é a síntese entre o darwinismo clássico e a genética”.

As descobertas de Darwin datam da metade do século XIX. No século seguinte, um grupo de pesquisadores partiu de suas idéias, encontrando novos resultados vinculados à teoria da evolução e da seleção natural. Esse grupo foi chamado de neodarwinista. No entanto, “nenhum desses novos achados foi capaz de rejeitar o que Darwin descobriu”, acrescenta Thales de Freitas, professor de evolução biológica da UFRGS.

Evolucionismo x criacionismo – O criacionismo é uma escola forte em algumas nações, mas sem tradição no Brasil. Para os crentes de que um ente supremo e dotado de inteligência criou todos os seres vivos da forma como são, não houve evolução e todas as espécies se mantiveram inalteradas desde a criação.

Um grupo norte-americano de partidários do criacionismo defende a idéia do “design inteligente”, que aceita a teoria evolutiva, mas considera que os fundamentos da base biológica, por exemplo toda a maquinaria bioquímica de uma célula, foram planejados por alguém. “É uma versão criacionista da evolução”, define o professor Aldo.

Há uma corrente que acredita que Deus criou as leis gerais do universo, dentre elas a da organização da vida e, depois, deixou o barco correr. “Uma visão um tanto ingênua”, diz o geneticista. Outros crêem que a vida surgiu espontaneamente, mas a gênese da espécie humana teria sido responsabilidade divina. “É como se todo o resto da evolução estivesse se preparando para o surgimento dos humanos. Essa é mais uma idéia poética ou mágica, de que houve todo um preparo para o surgimento da melhor espécie, capaz de reconhecer em tudo aquilo a obra de Deus.” O professor lembra ainda a existência de alguns cientistas que afirmam estudar a natureza para a glorificação de Deus.

Anna Carolina aponta como principal ponto de conflito entre criacionismo e evolucionismo o sentido menos técnico do primeiro que, à época do naturalista, atribuía a origem de cada espécie a um ato de criação particular por Deus. “Darwin valeu-se disso para atestar a superioridade explicativa de sua teoria, que dava conta de muitas questões relacionadas a fenômenos adaptativos, que o mero apelo a um princípio de harmonia instaurada pelo Criador não conseguia explicar.”

A evolução do pensamento – Integrante do Grupo Interdisciplinar de Filosofia e História das Ciências do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA), Aldo Araújo diz que para um cientista é fundamental perguntar quais são os pressupostos filosóficos do conceito utilizado, assim como conhecer a história de seu próprio campo. “É um sistema de referência: eu sei por onde andei, por onde ando e para onde posso ir. Usamos a experiência do passado para ações do futuro.”

O geneticista também é incisivo ao criticar a noção de que fazer História da Ciência é somente ler as obras do passado. “Trata-se de uma área dura de pesquisa, que no Brasil está se desenvolvendo muito bem. Ela é pesada como qualquer outra.”

Na opinião de Anna Carolina, a flexibilidade da metodologia de Darwin, sua perspicácia quanto à importância da comparação de visões, do uso da imaginação e de recursos como metáforas fazem da leitura de A Origem das Espécies uma aula de Filosofia da Ciência digna dos textos mais atuais.

Darwin hoje – Segundo a filósofa, Darwin trouxe contribuições muito inovadoras para a idéia de racionalidade como objeto de investigação da Ciência. “Primeiramente, a teoria darwiniana permite-nos ver uma racionalidade naturalizada, enraizada na natureza do homem como ser natural. Sob esse enfoque, a influência do pensamento darwiniano faz-se sentir nas recentes abordagens da Psicologia, por exemplo.”
Conforme Anna Carolina, a obra do cientista britânico mostra-nos uma ciência flexível em seus métodos e procedimentos, contestando a existência de algo como “o” método científico. “Para o próprio Darwin, os fatos podiam ser vistos de diferentes maneiras em uma teia complexa de razões”, diz a professora.

 

Para ler:
  • Pilares do tempo, de Stephen Jay Gould
    (Rocco, 2002, 188 págs.)
    A última obra deste famoso paleontólogo tem como tema central os magistérios não-interferentes. “Uma coisa é a ciência, outra é a religião; não se pode misturar”, explica o professor de Genética Aldo Mellender de Araújo. Ele esclarece que, dependendo do uso, os campos podem até se complementar: “Mas quando se trata do mundo objetivo, é a ciência e a evolução, teoria científica. Quando se trata do mundo post mortem ou enfim, aquele que não é a nossa realidade palpável, pode ser o magistério da religião”.
  • A caixa-preta de Darwin, de Michael Behe
    (Jorge Zahar, 1997, 304 págs.)
    O autor analisa as descobertas de Darwin à luz da bioquímica, sua área de formação. O pesquisador resgata a evolução após diversos avanços recentes da Ciência. A hipótese da ancestralidade comum não é rejeitada, mas a teoria da seleção natural é considerada como um evento biológico por demais complexo. O escritor poderia ser chamado de evolucionista-criacionista, segundo a classificação denotada por Aldo Araújo. Behe aceita os princípios da evolução, mas crê que as regras da vida foram dadas por um ser superior.
  • Vida maravilhosa — O acaso na evolução e a natureza da história, de Stephen Jay Gould
    (Companhia das Letras, 1990, 392 págs.)
    Explora a evolução pela ótica das contingências, comparando-a a uma fita de vídeo. Quando se passa a primeira vez, é uma história. Depois de rebobinada e assistida novamente, não é mais a mesma. “Haveria tantas contingências que não ocorreram da primeira vez, que o curso da história seria outro. Isso vale também para a história e a cultura humana; e na evolução é muito freqüente.”
  • A falácia genética — A ideologia do DNA na imprensa, de Cláudio Tognolli
    (Escrituras, 2004, 333 págs.)
    Obra escrita por um jornalista que investiga a genética na mídia. A falácia da imprensa é afirmar que a razão das doenças está somente nos genes, e não nas condições que os alteraram.
Para ver:
  • Gattaca - Experiência genética, de Andrew Niccol
    (EUA, 1997, 112 min.)
    O título é uma alusão ao código genético, com as iniciais das bases da cadeia: G de guanina, A de adenina, T de timina e C de citosina. “Gattaca é um lugar na terra do futuro onde as crianças nascem de tubos de ensaio, sem cópula ou gravidez”, narra Aldo Araújo. O filme mostra um mundo em que os horizontes pessoais e profissionais são pré-determinados pela engenharia genética. Os indivíduos nascidos fora desse sistema são condenados a viver como párias. “É um filme curiosíssimo, uma verdadeira obra-prima que vai contra a idéia de determinismo genético”, completa o professor.