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Professores revelam o drama do momento da reprovação

MA -   F:  Zero Hora



Há um momento crucial na atividade do professor. É quando limpa os dedos sujos de giz e pega a caneta vermelha para reprovar um aluno. Incompreendidos, por vezes xingados de carrascos, os mestres garantem que a decisão é sofrida.




Em artigo publicado terça-ferira, dia 16/12/08, em Zero Hora, o professor de Inglês Eduardo Jablonski, 39 anos, chamou a atenção para o dilema da reprovação. Afirmou que "é o lado ruim" da profissão, porque dói não aprovar um estudante.

Especialistas avaliam o drama, que antes se imaginava restrito ao aluno e a seus familiares. Professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Helena Sporleder Côrtes, observa que o momento da avaliação final é complexo. O educador deve ter a consciência se a reprovação é justa ou não.

— É a primeira questão a responder. Se a reprovação for injusta, ele tem de revisar a decisão. Agora, se for justa, o professor tem de ficar de consciência tranqüila — diz Helena.

A reprovação pode ser benéfica ao aluno, por mais cruel que pareça. Helena lembra que o estudante precisa saber lidar com um eventual fracasso, as frustrações da vida.

— Antes de tudo, é preciso que a reprovação seja justa. O professor precisa ser justo com aqueles alunos que conseguiram êxito. E manter a justiça de não conceder o mesmo mérito aos alunos que não conseguiram — ressalta a professora da PUCRS.

Professores que reprovam se sentem angustiados. Mas Helena pondera que o aluno também é co-participante na sua formação. Se ele faltou à aula, não fez os trabalhos pedidos, não se empenhou e foi mal nas provas, está merecendo a reprovação.

— O mérito da aprovação é da conquista do aluno — reforça.

Nas escolas, professores culpam os novos tempos, a falta de limites e de responsabilidades. Há 30 anos, os estudantes aguardavam a chegada dos mestres na sala de aula, comportados. Hoje, quando o professor chega, encontra alunos pendurados à janela, falando ao celular, conversando ruidosamente. Em alguns casos, precisa pedir atenção para iniciar a aula.

Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Fabiani Ortiz Portella, ressalva que a avaliação não deve ocorrer no final do ano, mas quando termina o primeiro semestre. Ela lembra que o adolescente tem ilusão de que o tempo não passa e adiam o esforço para a última hora.

— Com isso, o que acontece? Nós, psicopedagogos e especialistas, recebemos inúmeros pedidos de atendimento, como se pudéssemos fazer uma espécie de milagre na reta final — diz Fabiani.

A psicopedagoga insiste que a observação do aluno seja rotina durante o ano todo. Lembra que as escolas que adotaram o sistema de ciclos não reprovam. Em Porto Alegre, há 47 escolas regulares e quatro especiais que adotaram o ciclo:

— É um assunto polêmico, que merece uma boa discussão.

"Reprovar um aluno me machuca", diz professor

Professor de inglês há uma década, o gaúcho Eduardo Jablonski, 39 anos, vive um dilema que está se agravando. Como avaliar estudantes que não conseguem aprender, estão sempre na faixa próxima à nota zero? Ontem, na seção de artigos de ZH, ele publicou o texto "Dificuldade no aprendizado", que é mais um desabafo de quem não encontra respostas para o fracasso escolar de uma minoria de alunos.

Casado com a também professora Elaine Lauck, Jablonski concedeu entrevista no intervalo de uma das suas inúmeras aulas — leciona em duas faculdades e três cursos de idiomas da Região Metropolitana de Porto Alegre. Confira os principais trechos:

Zero Hora — O que o levou a escrever o artigo expondo o dilema de ter de reprovar alunos com fraco desempenho?

Eduardo Jablonski — Pelo fato de que vários alunos não conseguem evoluir em nada. Entre os meus alunos, 90% têm notas entre 9,5 e 10. São excelentes. Mas 5% podiam receber nota zero. Isso mexe comigo.

ZH — Algum caso de reprovação foi mais traumático?

Jablonski — Houve, sim. Na sexta-feira, corrigi a prova na frente de um aluno. Estava quase tudo errado. No final, tirou nota dois. Ainda pedi para ele refazer a prova, mas ele disse que não adiantaria. Insisti que mostraria os erros, mas ele repetiu que não adiantaria. Então, tive de reprová-lo.

ZH — Como foi esse momento?

Jablonski — Ao reprová-lo, disse para ele: "Cara, me desculpa". Então, ele me respondeu: "Não, não tem problema, eu entendo a situação". E pegou a prova e foi embora. Ele ficou mal. E eu também.

ZH — Esse dilema já vem de mais tempo?

Jablonski — Sim. Fiquei anos me recusando a reprovar alunos. Mas a situação está piorando. O nível da minoria de alunos fracos caiu ainda mais. Paralelamente, o nível dos alunos qualificados aumentou. Esse é o fato positivo.

ZH — O senhor escreveu que reprovar dói. Por que se sente aflito?

Jablonski — Porque não sei o que está acontecendo. Alguns professores não dão importância. Talvez seja pelo fato de barrar o progresso de alguém, isso me machuca. Pode ser mais sentimental do que racional. Não sei.

Por:Nilson Mariano